A nacionalização como sanção – o caso Renault
A nacionalização como sanção – o caso Renault.
Parece difícil conceber a razão pela
qual o interesse público seria prosseguido através de gestão privada por entidades
de natureza empresarial, mas são várias, como indica o Professor Diogo Freitas
de Amaral, podendo os fundamentos ser de ordem política, financeira, económica,
administrativas… mas mais curioso, é a instrumentalização do setor empresarial
do Estado na aplicação de sanções de ordem política.
É
o caso da Renault, após a Segunda Guerra Mundial, onde através do despacho
de 16 de janeiro de 1945, é declarada a dissolução da Société Renault Frères e a criação da Régie Nationale des Usines Renault – isto após o falecimento de Louis Renault, detido em setembro de 1944, que
morre um mês depois sem ter sido julgado, acusado de colaborar com os alemães.
É esta colaboração com o inimigo que serve como o fundamento para a
nacionalização sem indemnização da Renault (indemnização que os
herdeiros tentam obter até hoje) – repare-se que o confisco havia sido banido
após as revoluções liberais.
Portanto,
temos uma sanção decorrente fora do tribunal, ficando a separação de poderes e as
garantias processuais em plano secundário, enquanto resquício evidente daquilo
que era a sobreposição do interesse coletivo em prejuízo do particular. Fica,
porém, a questão: que interesse público se prosseguia com a nacionalização
da Renault?
Nenhum.
Não
havia qualquer interesse no Estado deter a produção de automóveis da marca, pelo
que a finalidade da nacionalização era, isoladamente, a punição política.
Assim,
mais difícil que as razões pelas quais o interesse público seria prosseguido
através de modelos empresariais, mas difícil é compreender de que modo será admissível, pôr em causa a confiança e a segurança jurídica, e ao Estado tomar para si os
encargos inerentes à nacionalização, nomeadamente na participação com capitais
públicos, em função da aplicação de uma sanção extrajudicial de ordem política pela Administração.
Pouco antes do fim da guerra, o governo francês nacionalizou a Renault, renomeando a empresa de fabrico de automóveis para Régie Nationale des Usines Renault. |
Daniela Florêncio
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