« É o mesmo martelo que bate, mas encurtou-se-lhe o cabo »
« É o mesmo martelo que bate, mas encurtou-se-lhe o cabo »
A
desconcentração segundo Odilon Barrot e o decreto francês de 25 de Março de
1852
A célebre
fórmula de Odilon Barrot, político e advogado francês – « É o mesmo martelo que
bate, mas encurtou-se-lhe o cabo* » – resume, com um apurado sentido político, a
lógica da desconcentração administrativa tal como ela se afirma em
meados do século XIX em França. Encontramo-nos então no contexto do nascente
Segundo Império: após o golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851, Louis
Napoléon Bonaparte procura consolidar um poder autoritário, melhorando ao mesmo
tempo a eficácia da administração territorial herdada da Revolução e do
Império.
Até então, a
centralização jacobina colocava todas as decisões importantes nas mãos dos
ministros e dos seus gabinetes parisienses. Ora, a complexificação das tarefas
administrativas, o crescimento demográfico e o desenvolvimento económico
impunham uma adaptação. O decreto de 25 de Março de 1852 marca, assim, uma
etapa essencial: confere aos prefeitos e, por delegação, aos subprefeitos e
chefes de serviço departamentais, poderes alargados para agir em nome do
Estado, sem ter de solicitar sistematicamente a autorização dos ministérios.
Esta reforma
não visava instaurar uma verdadeira descentralização, isto é, uma
autonomia das colectividades locais dotadas de personalidade jurídica própria,
mas sim melhorar o rendimento da acção administrativa no quadro de um Estado
unitário e hierarquizado. A responsabilidade permanecia vertical, e a
dependência dos agentes desconcentrados em relação ao poder central continuava
total: não eram senão os intermediários de uma vontade única, a do governo
imperial.
É nesta tensão
entre autoridade e eficácia que Odilon Barrot formula a sua metáfora: a
desconcentração não muda a natureza do poder (o martelo continua a ser o
mesmo), mas aproxima o seu centro de gravidade do terreno de execução (o cabo é
encurtado). Na descentralização, pelo contrário, há várias mãos e vários
martelos, diferentes entre si, ainda que todos actuem em coerência ao serviço
do bem público. A frase, tornada clássica, ilustra o compromisso francês entre
centralismo e pragmatismo administrativo: conciliar a unidade de decisão com a
proximidade de acção.
Em suma, a
fórmula ilustra, de forma metafórica e com um toque de ironia, a diferença
conceptual que ainda hoje existe entre desconcentração e descentralização.
Sílvia da Costa Barbosa Prévot, 69994.
* "C'est toujours le même marteau qui frappe, seulement on en a raccourci le manche".
Imagem : Caricatura de Odilon Barrot (Honoré Daumier)

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